domingo, 7 de outubro de 2012

E Morfeu se aproxima lentamente ao meu leito vazio. Alegrei-me em saber de sua vinda, hoje pedi tanto que ele viesse, em minhas orações. Enfim é dado o momento. E estou pronto ou pelo menos quase pronto. É o advento de uma nova vida. É o regozijo do ser adentrado no âmago.

domingo, 12 de agosto de 2012

O médico perguntou: — O que sentes?


E eu respondi: — Sinto lonjuras, doutor. Sofro de distâncias.

terça-feira, 24 de julho de 2012

De outro BLOG


A primeira vez que nos vimos uma harpa tocou. Não foram sinos, como sentenciam os escritores românticos. Foram harpas!
Uma estrela cadente cortou o céu, embora fosse dia. Em dez segundos eu disse para mim mesma: Eu o amo. Esse é o cara que vai mastigar a minha alma. Estou fodida. Eu o amo!
Uma menina de 15 anos gritava dentro do meu peito, correndo entre as artérias com uma rede de caçar borboletas. As borboletas tinham pernas e também corriam, e eu sentia que aqui dentro era um quadro do Dali ou filme do Tim Burton porque agora havia você.
A menina, as borboletas, meu sangue... Tudo corria na sua direção, embora eu estivesse parada.
Botões de rosa brotavam das minhas mãos e eu as colocava para trás numa tentativa desesperada de não deixar os espinhos à mostra.
Tudo isso num piscar de olhos, na primeira vez que nos vimos.
O som das pessoas em volta ficou baixinho e eu só ouvia a harpa.
Meu coração não batia freneticamente como era de se esperar. Não. Ele parou. Ficou paradinho enquanto menina e borboletas buscavam desenfreadamente por você.
Aí você se aproximou, beijou minha bochecha e fomos tomar um café. E eu nunca te contei que nos dez primeiros segundos que te vi, eu já era mais sua do que jamais fui minha.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Clarisse, L. Urbana

Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha.
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer.
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom-samaritano
Cumprindo o seu dever, como se eu fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos...

domingo, 22 de abril de 2012

Sobre como não perder um amor...


Você pode estar segura de que está fazendo o melhor para você, se protegendo de todas as formas de afeto sincero e verdadeiro; Isso porque um dia alguém te machucou e apensar de você ter superado, o fantasma da decepção permaneceu ao seu lado lhe fazendo companhia. Você não pode suportar nem admitir que mais uma vez se apaixonou, então passa a machucar seus próprios sentimentos para que mesmo feliz você possa lembrar que em algum momento você já se apaixonou e sofreu, passa a querer ignorar e abafar um sentimento que você sente mais tem medo de admitir, tem medo de sentir, medo de se entregar.
Daí você passa a fazer tudo errado achando que está certo, não se entrega por inteiro, não ama por inteiro, não deixa que te amem, não se permite sonhar, não se permite acreditar de novo no amor. Pensa que assim não poderá sofrer de novo porque o seu coração ninguém mais machuca, já o partiram tantas vezes que virou pó. Ninguém tem o direito de amar você, nem mesmo você se gosta ou se respeita o suficiente para admitir seus verdadeiros sentimentos. É ir dormir as 2:00 da madrugada para estar com tanto sono que não pode pensar mais em nada, porque não suporta pensar que alguém pode te amar, amar de verdade.
Você deixa sua felicidade ir embora a cada lágrima, a cada sorriso contido, a cada beijo não dado, a cada Eu te amo que você não conseguiu dizer.
Depois de fazer todas essas bobagens e de se proteger do melhor da vida, você consegue finalmente machucar quem só queria te fazer feliz novamente, aí a ficha cai, uma nova estação chega e você percebe todo tempo que perdeu em não querer ser feliz .

Afinação da arte de chutar tampinhas

"Há algum tempo venho afinando certa mania.
 Nos começos chutava tudo que achava.
A vontade era chutar. 
Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel.
Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. 
Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforos. 
Não sei quando começou em mim o gosto sutil. 
Somente sei que começou. 
E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, beleza que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando."

 João Antônio

Meu funeral

Antes, só queria estar. 
Hoje, estar já não é mais tão prazeroso.
Para haver o suprir de necessidades, é necessário ficar: e dentro um do outro, 
acasalados e de conchinha.
Caso contrário, pode ir. Eu deixo.
Chorar, todo mundo chora e não serei tão covarde a ponto de dizer que não quero sofrer, 
porque o quero no mais alto frenesi da dor, para aprender.
No fim, só o que vale é o aprendizado mesmo...